terça-feira, 21 de março de 2017

Conheça a história de São José dos Pinhais


Artigo: Antonio Francisco Bobrowec*


A história de São José dos Pinhais não deve ser entendida apenas no seu limite territorial, mas numa inter-relação com a história do próprio Paraná e também do Brasil. O que se convencionou a chamar de Villa (Município), em 1853, era muito antes terra de índios que circulavam por todo o território e, somente na segunda metade do século XVII, provavelmente entre os anos de 1660 a 1690, se instalaram por aqui os primeiros colonizadores portugueses em busca de ouro, encontrando-o e explorando-o às margens do rio Arraial.

Depois de um período de estagnação, do final do século XVII a meados do século XIX, a região conquistará sua independência política perante Curitiba (1853) e, a partir de 1878, diversas colônias de imigrantes europeus serão instaladas no Município. Serão estes imigrantes, em união com os nativos (indígenas) escravos negros e colonizadores portugueses, seus filhos e netos que escreverão a história e definirão a cultura e os costumes são-joseenses do final do século XVIII até a década de 1970. A partir de então, atraídos por melhores condições de trabalho com a criação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), diversas pessoas, vindas especialmente do interior do Paraná, e até mesmo de outros estados, começarão a residir no Município e mudarão o seu perfil interiorano para uma cidade em crescente expansão.

Por fim, falaremos da contemporânea São José dos Pinhais, com a instalação das montadoras de automóveis (Renault e Audi), no final da década de 1990, até os dias de hoje.


Frente da Catedral de São José dos Pinhais [Foto: Antonio Bobrowec]


Qual é a origem de São José dos Pinhais?

Há cerca de 10.000 anos, comunidades indígenas aqui viveram e, diferente do que convencionamos utilizar hoje, não viam fronteiras entre as terras, a não ser quando tinham contato com outras tribos.


Reprodução dos indígenas, conhecidos como botocudos, que circulavam em território são-joseense [Imagem: Google]


Assim, a história de São José dos Pinhais tem sua origem anterior ao processo de colonização de seu território com o Ciclo do Ouro (aqui em 1660-1690) e da Imigração Europeia (1878-1950). Não se pode esquecer que, muito antes dos europeus chegarem por estas terras, vários povos indígenas circularam no território paranaense cerca de 8.000 a.C. As provas matérias dessas origens são encontradas nos sambaquis do litoral paranaense, nas pinturas rupestres nos Campos Gerais e em achados arqueológicos. Este é o caso de ferramentas e objetos encontrados em São José dos Pinhais, nas proximidades da indústria Renault, datados pelos pesquisadores da UFPR de 1.500 anos.

De acordo com estudos arqueológicos, nesta região do Paraná viviam dois grupos étnicos indígenas: os tupi-guaranis, provavelmente os tupiniquins e os carijós, que viviam mais na região litorânea e de serra, ou seja, na floresta tropical e subtropical, e os botocudos (como se convencionou chamar por aqui as comunidades indígenas da família Jê), que circulavam mais na região do planalto.

Os tupi-guaranis, dos quais faziam parte os carijós, eram considerados pelos portugueses colonizadores como mais evoluídos do que outras tribos indígenas da região, apesar de viverem ainda culturalmente no Período da Pedra Polida. Eles não eram totalmente nômades. Prova disso era o fato deles cultivarem a agricultura. Eles também sabiam fazer redes com fios de algodão (os eni), criavam utensílios de cerâmica e fabricavam cestarias com fibras de taquaras. Suas casas, as ocas, eram compostas de estacas de madeira cobertas com folhas de butiá e palmeira. Ao descobrirem como extrair o veneno da mandioca (ácido dihidrocianídrico), eles puderam produzir e consumir farinha.

Já os botocudos, ao contrário da fama dócil dos carijós, eram muito hostis e tiveram várias indisposições, tanto com os colonizadores no século XVI e XVII, quanto com os imigrantes europeus que trafegavam no caminho dos Ambrósios (até 1951 a região dos Ambrósios, que hoje pertence ao Município de Tijucas do Sul, fazia parte do território de São José dos Pinhais) ou enquanto estavam nas colônias.

No século XVII e XVIII são registrados os primeiros redutos populacionais oficiais, com a busca de ouro às margens do rio Arraial e com a instalação de igrejas. Entram em cena os colonizadores de origem portuguesa.


Arraial Grande: povoamento em busca do ouro

A continuidade do processo histórico de São José acontece com a interiorização do Paraná pelos bandeirantes, que entraram na região do litoral em meados do séc. XVII. Nessa época, o Brasil era colônia da Coroa Portuguesa, que decide colonizar o sertão brasileiro. Sertão aqui subentende como sendo o interior do Brasil.


Ilustração representa o contexto da extração de ouro às margens do Rio Arraial em SJP [Imagem: Antonio Eder]


Até o início do século XVII o território brasileiro foi explorado pelos portugueses apenas na extensão do seu litoral. Isso se deve a dois motivos: primeiro, porque devido ao Tratado de Tordesilhas, firmado entre Portugal e Espanha desde 1494, cabia o lado leste do Continente americano para Portugal e o oeste para a Espanha, de acordo com uma linha imaginária, e o que corresponderia aos portugueses sobre o Paraná mal chegava a Paranaguá; o restante, inclusive o território que viria a ser São José dos Pinhais, era espanhol; segundo, porque Portugal até então não estava interessado em investir no Brasil. Foi a descoberta de ouro em Paranaguá pelos bandeirantes no século XVII que fez com que a Coroa Portuguesa mudasse de ideia.


Possíveis trajetos utilizados a partir da região do Arraial Grande em direção ao que viria ser o Centro de SJP [Mapa: PMSJP; Arte: Antonio Bobrowec]


Por causa do ouro, surge em Paranaguá um povoado. Apesar de se ter encontrado ouro em pequena quantidade, extraído das margens do rio (conhecido como ouro de aluvião), foi o suficiente para atrair aventureiros de toda a parte da colônia. Tal foi a importância da descoberta que a Coroa Portuguesa decidiu transformar Paranaguá em Vila (como era chamado um Município no Período Colonial) a 9 de janeiro de 1649.

Mas, Eleodoro Ébano Pereira, não satisfeito com o ouro encontrado em Paranaguá, decide realizar duas expedições na busca de mais fontes do minério, uma em 1649 e outra em 1651. Descobre-se, assim, ouro em rios do Planalto.  Um deles foi o rio Arraial, na região nordeste do atual Município de São José dos Pinhais, na divisa com Morretes. O local ficou conhecido como Arraial Grande e tinha um caminho muito utilizado pelos nativos na época, servindo de ligação terrestre entre o litoral e o planalto de Curitiba.

Além de Paranaguá e do Arraial Grande, outros focos de extração de ouro foram importantes na região paranaense como o do Atuba (local hoje pertencente a Curitiba e Pinhais), Arraial Queimado (Bocaiúva do Sul) e Canguiri (Campina Grande do Sul, Quatro Barras, Pinhais e Piraquara).

É importante mencionar aqui que diferente das regiões do nordeste e de São Vicente, como era conhecido São Paulo na época, as populações africanas que vieram ao Paraná como escravos devem ter sido em pequena quantidade. Isto porque ter um escravo negro era muito caro na época.

Aproveitando-se da docilidade do indígera tupi-guarani, os bandeirantes primeiro se tornaram amigos para saber trafegar e ter acesso ao litoral e depois, para subir a Serra do Mar em direção ao planalto da região de Curitiba e os Campos Gerais. Mas, a amizade passou a ser hostilidade quando os bandeirantes passaram a escravizar os indígenas, obrigando muitos deles a garimparem ouro para eles na região.

De acordo com o livro São José dos Pinhais: a trajetória de uma cidade, elaborado por Colnaghi, Magalhães e Magalhães Filho (1992), a representação nacional do ouro aqui extraída era significativa. “Segundo os dados mais conservadores, a produção anual média brasileira na última década do século XVII (1691-1700) foi de 1.500 quilos. Como a produção de Minas Gerais estava ainda em fase inicial, pode-se estimar que a produção do Litoral e o Planalto paranaense deviam representar cerca de 1/3 desse total, algo portanto em torno de 500 quilos anuais”.


O fim da “febre” do ouro e o surgimento de novos povoados

A descoberta de ouro no Arraial Grande fez com que houvesse um crescimento populacional rápido e desordenado. É importante destacar que o povoado que ali se formou não tinha o objetivo de permanecer, mas apenas explorar as riquezas da região. Ainda não seria o primeiro povoamento fixo em terras são-joseenses. Isto porque, no final do século XVII, a descoberta de ouro na região já não era mais vantajosa. O ouro em Minas Gerais era encontrado em grande escala e muitos foram os que deixaram o Arraial pelas péssimas condições de vida que começaram a ter com a escassez do ouro. Infelizmente não se tem quase registros da atividade e do cotidiano do Arraial Grande. Mas certamente no século XVIII a região deixou de ser um expressivo reduto populacional e os moradores que ali permaneceram apenas desenvolviam atividades de subsistência.

Em contrapartida, com a descoberta de novas terras no Planalto curitibano, que hoje corresponde a todas as cidades que fazem parte da Região Metropolitana de Curitiba, incluindo São José dos Pinhais, muitos foram os descendentes de europeus (todos portugueses na época) que requisitaram à Coroa a posse de extensões de terras, conhecidas como sesmarias. Dentre eles estava a família do padre João da Veiga Coutinho, tornando-se dono da fazenda Águas Belas, que equivaleria atualmente aos bairros são-joseenses do Afonso Pena, Guatupê, Águas Belas, Aviação, Iná e Boneca do Iguaçu, bem como da região de onde se encontra o Aeroporto Afonso Pena. Coutinho era ainda dono da fazenda Capocu, conhecida depois como Fazenda Rio Grande – região que corresponderia ao atual município de Fazenda Rio Grande (que já pertenceu a São José) e aos bairros Zacarias e Arujá, bem como às áreas rurais do Cachoeira e Agarau. 


Surge a Vila de Bom Jesus dos Perdões e São José dos Pinhais

Por volta de 1690 ergueu-se uma pequena igreja na fazenda Águas Belas, dedicada a Bom Jesus dos Perdões. Naquela época, um local que tivesse uma igreja caracterizava que os principais poderes, religioso e político no caso, também estavam representados e para que estes estivessem ali era necessário ter pessoas.


Imagem da Praça 8 de Janeiro, em 1908 [Foto: Museu Mun. SJP]


No final do século XVII e na primeira metade do século XVIII, em busca de melhores condições de vida os primeiros são-joseenses que criaram uma comunidade fixa na região preferiram um espaço que tivesse como realizar atividades agrícolas e de pecuária, bem como que pudessem cumprir suas obrigações religiosas. Percebe-se aqui que o primeiro habitante das terras são-joseense, o indígena, começa a ter que conviver com outra cultura, a do europeu que fixa moradia nessas terras e coloca também como prioridade construir igrejas para adorar o seu deus.


Centro comercial de São José dos Pinhais no início do séc. XX [Foto: Museu Mun. SJP]


Como acontecerá na grande maioria da extensão territorial brasileira, a convivência entre índios e portugueses não será pacífica. A de origem européia e cristã sufocará, e mesmo exterminará em relação a algumas tribos, a cultura indígena. Estes serão praticamente extintos, ou pela escravidão, ou por doenças e por não terem mais o meio ambiente propício para extrair da natureza a sua sobrevivência.  Confrontos entre indígenas e colonizadores serão largamente narrados tanto pelos oficiais da Coroa, quanto por relatos de descendentes de portugueses, e mais tarde de outros imigrantes europeus que se fixaram nestas terras.

Mas, se por um lado o índio passa a perder suas origens, sua cultura, para assumir a contragosto a cultura cristã e européia, por outro ele acrescenta ao europeu, neste processo de miscigenação, um pouco do que é dele. Do cruzamento do índio com o português nasce o caboclo. Dessa forma, não éramos mais nem índios nem portugueses, mas o resultado do cruzamento dessas duas culturas e povos.


A exibição de carros de corrida atraindo a atenção de curiosos em meados do séc. XX [Foto: Museu Mun. SJP]


Além da fazenda do padre Coutinho, outra localidade começa a desenvolver um povoado. É na região onde se tornaria, séculos depois, o centro urbano do Município. Ali seria elevada uma capela, tendo como padroeiro São José. Com o crescimento dessas comunidades a região passou a se chamar Freguesia de Bom Jesus dos Perdões e São José dos Pinhais. O termo colonial freguesia seria como que uma extensão de Curitiba para a época.

Mais tarde, não se sabe ao certo os motivos, a região da capela São José se desenvolveria em preferência a da capela do padre Coutinho. Em 1779 a capela de Bom Jesus dos Perdões foi demolida, devido ao seu estado de má conservação. Na sequência, padre Coutinho doou a fazenda para a administração pública. Por meio de um inventário, realizado em fevereiro de 1808, as terras foram leiloadas e adquiridas pelo imigrante português Manoel Mendes Leitão, influente político são-joseense de meados do século XIX.

O mais antigo documento oficial que fala pela primeira vez da Freguesia de São José é o provimento do ouvidor-geral Raphael Pires Pardinho, de 1721. Este era responsável pela organização e solução dos casos administrativos e judiciários dos locais por ele visitados. São oriundas dele as primeiras leis de são-joseense.


A criação e a delimitação do Município

São José dos Pinhais é um dos poucos municípios criados antes da Proclamação da República no Brasil (1889). Aliás, tornou-se Município meses antes do Paraná deixar de pertencer a São Paulo e se tornar Província (termo usado na época do Regime Imperial no Brasil para designar Estado).

A emancipação política de São José ocorreu no dia 8 de janeiro de 1853, devido ao seu desenvolvimento sócio-político. Desde o século XVIII, a Câmara de Curitiba possui entre os seus edis (vereadores) representantes políticos de São José dos Pinhais. Todavia, eles queriam mesmo é que a freguesia passasse a ser independente de Curitiba. Isto daria mais autonomia política para a localidade, bem como mais poder aos seus representantes políticos. Essa disputa por poder ficou clara na história da instalação da Câmara de Vereadores de São José quando das desavenças políticas entre os líderes locais da época, resultando inclusive em tiros e mortes em frente à Matriz de São José.


Aqui tinha negros, sim senhor!

Infelizmente, pouco se pesquisou até agora sobre a presença de escravos negros no Paraná. Muitos escritores, dentre eles o famoso Romário Martins, chegaram mesmo a defender um “branqueamento” da história do Estado. Em São José dos Pinhais isso não foi exceção. Uma grande injustiça a quem teve que vir milhares de léguas da África até aqui e servir de escravo para o mais diversos trabalhos forçados, e ainda não ter o reconhecimento deste fato.


A mão-de-obra escrava negra, de origem africana, também foi utilizada e explorada em SJP [Imagem: Alberto Henschel]


Ao se pesquisar os livros tombos da Catedral de São José dos Pinhais, ou mesmo resgatar reportagens de jornais antigos, como o 19 de dezembro, pode-se conferir que não só existiram escravos em São José dos Pinhais e em todo o Paraná, mas que eles, assim como em todo o país, eram tratados como objeto e tudo isso era aceito até mesmo pela igreja da época.

De acordo com a pesquisa de mestrado de Myriam Sbravati, São José dos Pinhais, 1776-1852 – uma paróquia paranaense em estudo (1980), em 1776 a população escrava negra era de 23,1% (270 indivíduos). Um ano depois de São José se tornar Município, em 1854, a população escrava era de 7,9%, ou seja, 365 pessoas. Mais tarde, poucos anos antes da libertação definitiva dos escravos pela princesa Isabel, São José possuía, em 1863, 769 escravos, representando 10,18%.

É claro que os escravos daqui faziam atividades bem diferentes dos senhores de engenho de açúcar do nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo; mas, como escravos, deveriam fazer todo tipo de trabalho pesado, como desmatar florestas, cortar lenha, fazer serviços domésticos, fazer roçadas e plantações, etc. Como foi dito, os relatos são quase inexistentes, principalmente com a vinda dos imigrantes europeus em 1878. A história destes passou a ser contata como um drama épico, e que de certa forma foi mesmo, mas não chegaria a ser trágica como a saga dos índios e dos negros. Antes de falar dos imigrantes é preciso não esquecer que a nossa história, e o que somos hoje, deve-se muito ao índio e ao negro.


A vinda de imigrantes e a criação das colônias

Com a vinda de imigrantes europeus, especialmente de origem polonesa, italiana, ucraniana e alemã, e no séc. XX de árabes e persas, o ambiente cultural, político e econômico mudaria radicalmente em São José dos Pinhais. E a mistura étnica formaria um novo perfil de são-joseense.

A vinda de imigrantes para terras brasileiras tinha como principal objetivo ocupar o território, ainda em grande parte inexplorado pelos portugueses e seus descendentes. Antes, é preciso situar o leitor que desde 1640, quando Portugal volta a ser independente perante a Espanha depois de 60 anos, o Tratado de Tordesilhas há anos não vinha sendo cumprido. Cada vez mais os portugueses foram conquistando territórios, antes pertencente à Espanha. Em 1750, os dois países renegociavam os limites de fronteira. O mesmo aconteceu em 1761, 1777 e, finalmente, em 1801, quando para o Brasil-português faltaria apenas o Acre para constituir o território que possui hoje. Nisso, surge um problema: como garantir estas fronteiras?

Na Europa, no século XVIII, a realidade era o inverso. Com o auge da Revolução Industrial européia, milhares de pessoas deixaram a área rural e acabaram por viver na miséria, desempregados e sem perspectivas de vida. A situação ficou preocupante para os governos europeus, que não sabiam o que fazer com tanta gente nas cidades, criando todo tipo de problema social, como insegurança, violência, doenças e rebeliões.

Como diz o ditado: “juntou-se a fome com a vontade de comer”. Os governos europeus queriam se livrar de milhares de miseráveis, ao mesmo tempo em que os governos da América necessitam de contingente populacional. Assim, milhares de europeus, na sua grande maioria pobre e que possuía experiência no campo, vieram morar na América em busca de melhores condições de vida.

O Brasil, para atrair imigrantes, divulgou até mesmo na Europa as vantagens de vir morar no país. Essa promessa de um El Dourado brasileiro atraiu pessoas de diversas localidades. No Paraná houve no ano de 1829 uma primeira tentativa com russos e alemães, em Rio Negro (na época território da Lapa), mas foi um verdadeiro fracasso. Novas tentativas foram feitas na década de 1870, mas desta vez várias delas prosperaram.

Em São José dos Pinhais, a primeira colônia a funcionar foi a Thomaz Coelho, em 1876. Contudo, pode-se dizer que a primeira colônia são-joseense de fato foi a de Murici, em 1878, pois a de Thomaz Coelho passou a pertencer a Araucária a partir de 1890.

No começo eles tinham como responsabilidade cultivar a terra, plantar e fornecer alimentos para a Província do Paraná, ou seja, os imigrantes tinham como tarefa abastecer os descendentes de portugueses que já estavam no Município e região há 200 anos. Sem contar, é claro, a vantagem que foi para os colonizadores de ter um grupo civilizado (na visão européia) morando nessas terras, que trabalhassem e tivessem a mesma formação cultural que eles. Porém, nem tudo foram flores.

Para os imigrantes, que aqui vieram pela propaganda do El Dourado, logo tudo se tornou uma dura realidade. Os subsídios de moradia e agrícolas, que deveriam ser fornecidos pelo governo, ficaram somente na promessa. Para vencer esta dura realidade, os colonos tiveram que improvisar na construção de suas próprias casas, cortar toras e mais toras de pinheiros e imbuias centenários e ter muita, mas muita paciência mesmo, pois com a demora ou a nunca vinda de recursos por parte do Governo da Província, eles tiveram que se virar.


No centro, destaque para a inauguração da Casa Escolar Silveira da Motta, em 1912. Atualmente, o prédio abriga a Biblioteca Pública da Cidade [Foto: Museu Mun. SJP]


Isso sem falar nos confrontos que os colonos tiveram que enfrentar com os nativos que circulavam nas proximidades da colônia. De um lado, um grupo tendo que se defender de ataques; do outro, tribos que lutam para reivindicar o que era delas. À parte desta realidade, uma sociedade ainda escravocrata, na qual o negro, prestes a ser liberto pela Lei Áurea (1888) ficaria numa situação como a do indígena: sem direito a terra e sem perspectivas de progresso.


Os primeiros empreendedores e a diversificação do comércio

A situação dos colonos não foi fácil. Entre mentes, ainda no final do século XIX e início do XX encontramos, em registros oficiais, imigrantes-colonos com estabelecimentos comerciais no Centro da Cidade (São José dos Pinhais passou a ter este título a 27 de dezembro de 1897). Eles iriam conviver com os descendentes dos antigos colonizadores portugueses, com residências e comércio nas áreas nobres da cidade, especialmente dos de descendência italiana e alemã, e se tornar as famílias tradicionais do Município. Muitos deles com funções de destaque, como os guardas nacionais. Alguns deles viriam a, inclusive, ocupar cargos políticos como os Brito, Ordini, Cruz, Alves, Pereira, Cordeiro, Moro, Claudino, Killian, Massaneiro, etc.


Frente da Indústria Senegaglia, início do séc. XX [Foto: Museu Mun. SJP]


No século XX, São José dos Pinhais possuía diversos estabelecimentos comerciais e a Rua XV de Novembro passa a ser o centro comercial e político da Cidade. Em 1905, a nova igreja Matriz começa a ser construída. Sua inauguração acontece na década de 1920. Perto dali, o grupo escolar Silveira da Motta inaugura seu prédio, em 1912. O cinema também chega a São José. O transporte coletivo, com os ônibus da empresa Santo Antônio, que depois viriam a ser Auto Viação São José e Sanjotur, realizam o transporte dos moradores de São José com Curitiba (com início em 1928) e da cidade com os bairros e área rural, substituídos as antigas diligências.

A erva-mate, bem como a extração e manufatura da madeira, que foram atividades econômicas de relevância no séc. XIX, passam gradativamente a dar espaço para outros seguimentos. Já no séc. XX tem início o processo de industrialização na região. Um exemplo disso é a indústria Senegaglia, que seria símbolo do setor no Município, na qual se fabricavam placas de veículos, canecas, baldes, latas, chocolateiras, calhas, formas de pão, enfim, diversos produtos de uso para o dia-a-dia para uma população que criava novas necessidades de utensílios, em moda até então, demonstrando o franco progresso da sociedade são-joseense em acompanhar o que estava sendo consumido em sua época.


Frota da empresa de transporte coletivo Santo Antônio, na década de 1940 [Foto: Museu Mun. SJP]


Na área rural, moinhos produziam o fubá e a farinha e as serralherias manufaturavam a madeira para a construção de casas e móveis. No centro, abrem-se sapatarias, restaurantes, fábricas de cerveja e água-ardente, de refrigerante e licores, ferraria, alfaiataria e vários estabelecimentos de secos e molhados.

Mesmo com tantos avanços e conquistas, os moradores não perderam os seus costumes e tradições. A Igreja Católica local fazia parte do cotidiano das suas vidas, seja nas colônias, seja na Cidade. É importante destacar que até a década de 1960, a maioria da população morava na área rural, cerca de 71,5%, ou seja, 20.657 habitantes, segundo dados do IBGE.


São José: urbana e “cidade dormitório” de Curitiba

Na década de 1970, milhares de pessoas, provenientes especialmente do norte do Paraná, deslocam-se para a região de Curitiba. Um dos motivos foi o que se convencionou chamar de “a grande geada negra”, uma forte friagem em 1975 que acabou com as plantações de café, deixando na miséria milhares de paranaenses. Contudo, foi a crescente industrialização no país que fez com que o cenário urbano e o inchaço nas cidades médias e grandes começasse a ser cada vez mais intenso.

De uma hora para outra não só Curitiba aumentou expressivamente a sua população, mas também cidades ao seu redor recebem, sem planejamento, milhares de pessoas. Os “pés-vermelhos”, como foram chamados os paranaenses provenientes do interior do Paraná, numa referência à cor vermelha do solo da região, começam a se integrar com a vida e economia dessas cidades. O crescimento foi tão expressivo que em 1973, Curitiba e as cidades vizinhas (inclusive São José dos Pinhais) tornam-se uma das Regiões Metropolitanas do Brasil.

O resultado dessa migração em São José dos Pinhais foi impactante. Na década de 1980, a população simplesmente dobrou em relação à década anterior (de 34.124 para 70.634 habitantes). A urbanização também subiu, de 62,9% em 1970 para 78,8% em 1980.


Câmara Municipal de SJP [Foto: Antonio Bobrowec]


Mas a oferta de trabalho, em compensação, era buscada em Curitiba, pois São José dos Pinhais, economicamente falando, ainda era uma cidade interiorana. Isso fez com que milhares de pessoas saíssem de São José em direção a Curitiba para trabalhar e retornarem assim que acabava o expediente. Por causa disso, o município são-joseense ficou conhecido como “cidade dormitório” de Curitiba.

Pode-se dizer que a súbita vinda de tantas pessoas para São José tornou-se, a partir de então, um desafio de gestão pública. De acordo com o censo de 1990, o Município passou a ter 101.881 habitantes. A grande maioria trabalhava em Curitiba, pois ainda eram poucos os pontos de trabalho em São José dos Pinhais. Poucas empresas não significavam apenas poucos empregos, mas também poucos impostos e, desta forma, menos recursos públicos. Por outro lado, mais habitantes, mais demanda de infra-estrutura a serem feitas no Município.


Vista área do Centro de São José dos Pinhais [Foto: PMSJP]


Pode-se dizer que a urbanização não significou necessariamente progresso e vantagens para São José, e sim muito mais um fator de desafio, ainda mais com o surgimento de problemas até então pouco comuns pelos são-joseenses, como desemprego e violência.


Da vinda das montadoras ao status de 2ª economia do Paraná

Uma nova fase da história de São José dos Pinhais começa a ser escrita a partir da segunda metade da década de 1990. Com os avanços da tecnologia, a estabilidade econômica do país com o Plano Real e as medidas políticas de abertura para o mercado estrangeiro, especialmente com a vinda de multinacionais fizeram com que o Brasil se inserisse de vez nas regras do jogo da Globalização. No meio desse processo, São José dos Pinhais se destaca entre as cidades do Paraná para receber duas grandes montadoras multinacionais de automóveis: a francesa Renault, na região de Roseira de São Sebastião, inaugurada oficialmente em 1997 (vindo mais tarde a Nissan a ser incorporada a ela) e a alemã Audi-Volksvagem, inaugurada em 1999 na região de Campo Largo da Roseira.


Calçadão da Rua XV de Novembro, centro comercial da Cidade [Foto: Antonio Bobrowec]


A vinda destas duas montadoras mudaria mais uma vez o perfil do município. Vários postos de emprego foram abertos, tanto das próprias montadoras, quanto das diversas empresas e indústrias terceirizadas que vieram lhes prestar serviços. A notícia da inauguração delas foi um verdadeiro chamariz de pessoas vindas de toda a parte do Brasil em busca de trabalho e melhores condições de vida. Para se ter noção do impacto que isso iria criar no Município, de 1990 para o ano de 2000 a população novamente mais que dobrou de uma década a outra, passando a ter mais de 204.000 habitantes. Se no início da década de 1990 já era difícil administrar o São José dos Pinhais, imagine a complexidade que passou a ser com o início do terceiro milênio!

Muitas das pessoas que vieram trabalhar nas montadoras viram seus sonhos serem frustrados pela sua falta de qualificação profissional. Este inclusive começou a ser uma das grandes preocupações a nível nacional: qualificação educacional e técnica para encaixar a população nas demandas de trabalho com as novas necessidades da Globalização.


Paço Municipal/Prefeitura de São José dos Pinhais [Foto: Antonio Bobrowec]


A situação se agravou ainda mais com os resultados da abertura de mercado econômicos feitas em meados da década de 1990. O sistema econômico conhecido como neoliberalismo, ao mesmo tempo em que incentivava a vinda de investimentos do exterior, exigia mão de obra barata; mas, no caso das montadoras, qualificada.

Grande parte das pessoas que não conseguiram emprego em São José dos Pinhais começaram a viver irregularmente, em condições inadequadas de moradia. Ao mesmo tempo cresce a demanda por serviços públicos como saúde, segurança, saneamento básico, moradia, educação, pavimentação asfáltica ou de situação adequada de uso, etc. Se por um lado a vinda de grandes indústrias fez com que várias outras indústrias também resolvessem se instalar no Município, a falta de planejamento público não conseguiu corresponder a boa parte da demanda de serviços à população.

No entanto, como resultado de medidas feitas pelos governos Estadual e Federal nos últimos anos, como abertura de crédito a classes C, D e mesmo E, a realização de planos assistencialistas para classes menos favorecidas (a famosa “bolsa família”), a ampliação de oferta de ensino superior (apesar que boa parte de iniciativa particular), e ultimamente de cursos técnicos e tecnólogos, fizeram com que amenizasse um pouco a desigualdade social. São José dos Pinhais, por exemplo, hoje possui três faculdades (todas particulares, diga-se de passagem), além de várias escolas e colégios particulares.

No comércio, várias empresas de rede se instalam no Município como Casas Bahia, Salfer, Cem, Copel (que recentemente fechou sua loja na Cidade), Marisa, Magazzine Luiza, Lojas MM, sem contar as Pernambucanas que há anos se encontra na Centro urbano. Outras localidades da cidade começam a ter um crescimento expressivo no setor comercial, como os da Rua Almirante Alexandrino, no bairro Afonso Pena e a Rua Canoinhas, na Borda do Campo. Mas o símbolo da auto-suficiência do comércio são-joseense perante Curitiba, do qual historicamente era dependente, foi a inauguração do Shopping Center São José.

Tudo isso fez com que, desde 2011, São José dos Pinhais alternando o posto de 2ª  e 3ª maior economia do Estado com o Município de Araucária. Porém, isso não significa que esta realidade está se revertendo em serviços de qualidade e ótima infra-estrutura para a população. Há muito a ser feito, exigindo das autoridades públicas, e mesmo da sociedade civil, formas eficazes, e não meramente paliativas, de solucionar os efeitos da falta de planejamento para a repentina explosão demográfica do Município no final do século XX.

Mais uma vez é importante destacar que a história de São José dos Pinhais, e agora mais do que nunca, não deve ser vista separada do que vem acontecendo no Estado, no Brasil e no mundo. A diferença, contudo, é que nos últimos anos o Município se tornou um dos grandes do estado, tem uma relação interdependente com Curitiba, de forma colaborativa e saudável e, principalmente, um povo multicultural e com um passado rico para contar.


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* Antonio Francisco Bobrowec é bacharel em Comunicação Social - Jornalismo (PUCPR/Eseei), licenciado em Filosofia (Bagozzi), pós-Graduado em História Antiga e Medieval/ História e Geografia do Paraná (Itecne) e mestrando em Educação e Novas Tecnologias (Uninter). Atualmente é presidente do Conselho Municipal de Cultura (CMC) e do Conselho Municipal de Patrimônio Artístico e Cultural (Compac), ambos de São José dos Pinhais



14 comentários:

  1. Orgulho de ser são Joseense!! 45 anos!!! Antena 1000, Naútico, Bahamas, Americano, D'garagem... tempo bom curti muito...

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  2. Bom dia . Alguém tem o livro sobre história e geografia de são José dos Pinhais?

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  3. Vi, Vivi e vivo toda essa transformação a que se passa em São Jose dos Pinhais.
    Terra que eu adoro.

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  4. É uma excelente cidade sim, mais é carente de unidades de saúde pois só tem uma upa a Afonso pena que apesar de ter bom atendimento e muito a única em uma cidade enorme, tornando dificultado o acesso de quem mora longe do Afonso pena, o atendimento e o cuidado do hospital São José é muito bom principalmente maternidade. Enfim é uma cidade boa.

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    1. a revista não é da prefeitura meu caro portanto perde tempo reclamando aqui

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  5. Muito bom. Adorei ler o artigo e a cidade é muito bonita.

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  6. Adorei. Eu acho são José dos Pinhais um cidade linda o centto da cidade o parque as praças...
    Tudo é lindo aqui em São José Pinhais

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  7. acho que pecou não citando as industrias de papel da cidade e sua historia

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