Artigo: Antonio Francisco Bobrowec*
A história de São
José dos Pinhais não deve ser entendida apenas no seu limite territorial, mas
numa inter-relação com a história do próprio Paraná e também do Brasil. O que
se convencionou a chamar de Villa (Município), em 1853, era muito antes terra
de índios que circulavam por todo o território e, somente na segunda metade do
século XVII, provavelmente entre os anos de 1660 a 1690, se instalaram por aqui
os primeiros colonizadores portugueses em busca de ouro, encontrando-o e
explorando-o às margens do rio Arraial.
Depois de um
período de estagnação, do final do século XVII a meados do século XIX, a região
conquistará sua independência política perante Curitiba (1853) e, a partir de
1878, diversas colônias de imigrantes europeus serão instaladas no Município.
Serão estes imigrantes, em união com os nativos (indígenas) escravos negros e
colonizadores portugueses, seus filhos e netos que escreverão a história e
definirão a cultura e os costumes são-joseenses do final do século XVIII até a
década de 1970. A partir de então, atraídos por melhores condições de trabalho
com a criação da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), diversas pessoas, vindas
especialmente do interior do Paraná, e até mesmo de outros estados, começarão a
residir no Município e mudarão o seu perfil interiorano para uma cidade em
crescente expansão.
Por fim, falaremos
da contemporânea São José dos Pinhais, com a instalação das montadoras de
automóveis (Renault e Audi), no final da década de 1990, até os dias de hoje.
Frente da Catedral de São José dos Pinhais [Foto: Antonio Bobrowec]
Qual é a origem de São José dos Pinhais?
Há cerca de 10.000
anos, comunidades indígenas aqui viveram e, diferente do que convencionamos
utilizar hoje, não viam fronteiras entre as terras, a não ser quando tinham
contato com outras tribos.
Reprodução dos indígenas, conhecidos como botocudos, que circulavam em território são-joseense [Imagem: Google]
Assim, a história
de São José dos Pinhais tem sua origem anterior ao processo de colonização de
seu território com o Ciclo do Ouro (aqui em 1660-1690) e da Imigração Europeia
(1878-1950). Não se pode esquecer que, muito antes dos europeus chegarem por
estas terras, vários povos indígenas circularam no território paranaense cerca
de 8.000 a.C. As provas matérias dessas origens são encontradas nos sambaquis
do litoral paranaense, nas pinturas rupestres nos
Campos Gerais e em achados arqueológicos. Este é o caso de ferramentas e
objetos encontrados em São José dos Pinhais, nas proximidades da indústria
Renault, datados pelos pesquisadores da UFPR de 1.500 anos.
De acordo com
estudos arqueológicos, nesta região do Paraná viviam dois grupos étnicos
indígenas: os tupi-guaranis, provavelmente os tupiniquins e os carijós, que
viviam mais na região litorânea e de serra, ou seja, na floresta tropical e
subtropical, e os botocudos (como se convencionou chamar por aqui as
comunidades indígenas da família Jê), que circulavam mais na região do planalto.
Os tupi-guaranis,
dos quais faziam parte os carijós, eram considerados pelos portugueses
colonizadores como mais evoluídos do que outras tribos indígenas da região,
apesar de viverem ainda culturalmente no Período da Pedra Polida. Eles não eram
totalmente nômades. Prova disso era o fato deles cultivarem a agricultura. Eles
também sabiam fazer redes com fios de algodão (os eni), criavam utensílios de
cerâmica e fabricavam cestarias com fibras de taquaras. Suas casas, as ocas,
eram compostas de estacas de madeira cobertas com folhas de butiá e palmeira. Ao
descobrirem como extrair o veneno da mandioca (ácido dihidrocianídrico), eles puderam produzir e consumir
farinha.
Já os botocudos, ao
contrário da fama dócil dos carijós, eram muito hostis e tiveram várias
indisposições, tanto com os colonizadores no século XVI e XVII, quanto com os
imigrantes europeus que trafegavam no caminho dos Ambrósios (até 1951 a região
dos Ambrósios, que hoje pertence ao Município de Tijucas do Sul, fazia parte do
território de São José dos Pinhais) ou enquanto estavam nas colônias.
No século XVII e
XVIII são registrados os primeiros redutos populacionais oficiais, com a busca
de ouro às margens do rio Arraial e com a instalação de igrejas. Entram em cena
os colonizadores de origem portuguesa.
Arraial Grande: povoamento em busca do ouro
A continuidade do processo histórico de São
José acontece com a interiorização do Paraná pelos bandeirantes, que entraram
na região do litoral em meados do séc. XVII. Nessa época, o Brasil era colônia
da Coroa Portuguesa, que decide colonizar o sertão brasileiro. Sertão aqui
subentende como sendo o interior do Brasil.
Ilustração representa o contexto da extração de ouro às margens do Rio Arraial em SJP [Imagem: Antonio Eder]
Até o início do século XVII o território
brasileiro foi explorado pelos portugueses apenas na extensão do seu litoral.
Isso se deve a dois motivos: primeiro, porque devido ao Tratado de Tordesilhas,
firmado entre Portugal e Espanha desde 1494, cabia o lado leste do Continente americano
para Portugal e o oeste para a Espanha, de acordo com uma linha imaginária, e o
que corresponderia aos portugueses sobre o Paraná mal chegava a Paranaguá; o
restante, inclusive o território que viria a ser São José dos Pinhais, era
espanhol; segundo, porque Portugal até então não estava interessado em investir
no Brasil. Foi a descoberta de ouro em Paranaguá pelos bandeirantes no século
XVII que fez com que a Coroa Portuguesa mudasse de ideia.
Possíveis trajetos utilizados a partir da região do Arraial Grande em direção ao que viria ser o Centro de SJP [Mapa: PMSJP; Arte: Antonio Bobrowec]
Por causa do ouro, surge em Paranaguá um
povoado. Apesar de se ter encontrado ouro em pequena quantidade, extraído das
margens do rio (conhecido como ouro de aluvião), foi o suficiente para atrair
aventureiros de toda a parte da colônia. Tal foi a importância da descoberta
que a Coroa Portuguesa decidiu transformar Paranaguá em Vila (como era chamado
um Município no Período Colonial) a 9 de janeiro de 1649.
Mas, Eleodoro Ébano Pereira, não satisfeito
com o ouro encontrado em Paranaguá, decide realizar duas expedições na busca de
mais fontes do minério, uma em 1649 e outra em 1651. Descobre-se, assim, ouro
em rios do Planalto. Um deles foi o rio
Arraial, na região nordeste do atual Município de São José dos Pinhais, na
divisa com Morretes. O local ficou conhecido como Arraial Grande e tinha um
caminho muito utilizado pelos nativos na época, servindo de ligação terrestre
entre o litoral e o planalto de Curitiba.
Além de Paranaguá e do Arraial Grande, outros
focos de extração de ouro foram importantes na região paranaense como o do
Atuba (local hoje pertencente a Curitiba e Pinhais), Arraial Queimado (Bocaiúva
do Sul) e Canguiri (Campina Grande do Sul, Quatro Barras, Pinhais e Piraquara).
É importante
mencionar aqui que diferente das regiões do nordeste e de São Vicente, como era
conhecido São Paulo na época, as populações africanas que vieram ao Paraná como
escravos devem ter sido em pequena quantidade. Isto porque ter um escravo negro
era muito caro na época.
Aproveitando-se da
docilidade do indígera tupi-guarani, os bandeirantes primeiro se tornaram
amigos para saber trafegar e ter acesso ao litoral e depois, para subir a Serra
do Mar em direção ao planalto da região de Curitiba e os Campos Gerais. Mas, a
amizade passou a ser hostilidade quando os bandeirantes passaram a escravizar
os indígenas, obrigando muitos deles a garimparem ouro para eles na região.
De acordo com o livro São José dos Pinhais: a trajetória de uma cidade, elaborado por Colnaghi,
Magalhães e Magalhães Filho (1992), a representação nacional do ouro aqui
extraída era significativa. “Segundo os dados mais conservadores, a produção
anual média brasileira na última década do século XVII (1691-1700) foi de 1.500
quilos. Como a produção de Minas Gerais estava ainda em fase inicial, pode-se
estimar que a produção do Litoral e o Planalto paranaense deviam representar
cerca de 1/3 desse total, algo portanto em torno de 500 quilos anuais”.
O fim da “febre” do ouro e o surgimento de
novos povoados
A descoberta de ouro no Arraial Grande fez
com que houvesse um crescimento populacional rápido e desordenado. É importante
destacar que o povoado que ali se formou não tinha o objetivo de permanecer,
mas apenas explorar as riquezas da região. Ainda não seria o primeiro
povoamento fixo em terras são-joseenses. Isto porque, no final do século XVII,
a descoberta de ouro na região já não era mais vantajosa. O ouro em Minas
Gerais era encontrado em grande escala e muitos foram os que deixaram o Arraial
pelas péssimas condições de vida que começaram a ter com a escassez do ouro.
Infelizmente não se tem quase registros da atividade e do cotidiano do Arraial
Grande. Mas certamente no século XVIII a região deixou de ser um expressivo
reduto populacional e os moradores que ali permaneceram apenas desenvolviam
atividades de subsistência.
Em contrapartida, com a descoberta de novas
terras no Planalto curitibano, que hoje corresponde a todas as cidades que
fazem parte da Região Metropolitana de Curitiba, incluindo São José dos
Pinhais, muitos foram os descendentes de europeus (todos portugueses na época)
que requisitaram à Coroa a posse de extensões de terras, conhecidas como
sesmarias. Dentre eles estava a família do padre João da Veiga Coutinho,
tornando-se dono da fazenda Águas Belas, que equivaleria atualmente aos bairros
são-joseenses do Afonso Pena, Guatupê, Águas Belas, Aviação, Iná e Boneca do
Iguaçu, bem como da região de onde se encontra o Aeroporto Afonso Pena.
Coutinho era ainda dono da fazenda Capocu, conhecida depois como Fazenda Rio
Grande – região que corresponderia ao atual município de Fazenda Rio Grande
(que já pertenceu a São José) e aos bairros Zacarias e Arujá, bem como às áreas
rurais do Cachoeira e Agarau.
Surge a Vila de Bom Jesus dos Perdões e São
José dos Pinhais
Por volta de 1690 ergueu-se uma pequena
igreja na fazenda Águas Belas, dedicada a Bom Jesus dos Perdões. Naquela época,
um local que tivesse uma igreja caracterizava que os principais poderes,
religioso e político no caso, também estavam representados e para que estes
estivessem ali era necessário ter pessoas.
Imagem da Praça 8 de Janeiro, em 1908 [Foto: Museu Mun. SJP]
No final do século XVII e na primeira metade
do século XVIII, em busca de melhores condições de vida os primeiros
são-joseenses que criaram uma comunidade fixa na região preferiram um espaço
que tivesse como realizar atividades agrícolas e de pecuária, bem como que
pudessem cumprir suas obrigações religiosas. Percebe-se aqui que o primeiro
habitante das terras são-joseense, o indígena, começa a ter que conviver com
outra cultura, a do europeu que fixa moradia nessas terras e coloca também como
prioridade construir igrejas para adorar o seu deus.
Centro comercial de São José dos Pinhais no início do séc. XX [Foto: Museu Mun. SJP]
Como acontecerá na grande maioria da extensão
territorial brasileira, a convivência entre índios e portugueses não será
pacífica. A de origem européia e cristã sufocará, e mesmo exterminará em
relação a algumas tribos, a cultura indígena. Estes serão praticamente
extintos, ou pela escravidão, ou por doenças e por não terem mais o meio
ambiente propício para extrair da natureza a sua sobrevivência. Confrontos entre indígenas e colonizadores
serão largamente narrados tanto pelos oficiais da Coroa, quanto por relatos de
descendentes de portugueses, e mais tarde de outros imigrantes europeus que se
fixaram nestas terras.
Mas, se por um lado o índio passa a perder
suas origens, sua cultura, para assumir a contragosto a cultura cristã e
européia, por outro ele acrescenta ao europeu, neste processo de miscigenação,
um pouco do que é dele. Do cruzamento do índio com o português nasce o caboclo.
Dessa forma, não éramos mais nem índios nem portugueses, mas o resultado do
cruzamento dessas duas culturas e povos.
A exibição de carros de corrida atraindo a atenção de curiosos em meados do séc. XX [Foto: Museu Mun. SJP]
Além da fazenda do padre Coutinho, outra
localidade começa a desenvolver um povoado. É na região onde se tornaria, séculos
depois, o centro urbano do Município. Ali seria elevada uma capela, tendo como
padroeiro São José. Com o crescimento dessas comunidades a região passou a se
chamar Freguesia de Bom Jesus dos Perdões e São José dos Pinhais. O termo
colonial freguesia seria como que uma extensão de Curitiba para a época.
Mais tarde, não se sabe ao certo os motivos,
a região da capela São José se desenvolveria em preferência a da capela do
padre Coutinho. Em 1779 a capela de Bom Jesus dos Perdões foi demolida, devido
ao seu estado de má conservação. Na sequência, padre Coutinho doou a fazenda
para a administração pública. Por meio de um inventário, realizado em fevereiro
de 1808, as terras foram leiloadas e adquiridas pelo imigrante português Manoel
Mendes Leitão, influente político são-joseense de meados do século XIX.
O mais antigo documento oficial que fala pela
primeira vez da Freguesia de São José é o provimento do ouvidor-geral Raphael
Pires Pardinho, de 1721. Este era responsável pela organização e solução dos
casos administrativos e judiciários dos locais por ele visitados. São oriundas
dele as primeiras leis de são-joseense.
A criação e a delimitação do Município
São José dos Pinhais é um dos poucos
municípios criados antes da Proclamação da República no Brasil (1889). Aliás,
tornou-se Município meses antes do Paraná deixar de pertencer a São Paulo e se
tornar Província (termo usado na época do Regime Imperial no Brasil para
designar Estado).
A emancipação política de São José ocorreu no
dia 8 de janeiro de 1853, devido ao seu desenvolvimento sócio-político. Desde o
século XVIII, a Câmara de Curitiba possui entre os seus edis (vereadores)
representantes políticos de São José dos Pinhais. Todavia, eles queriam mesmo é
que a freguesia passasse a ser independente de Curitiba. Isto daria mais
autonomia política para a localidade, bem como mais poder aos seus
representantes políticos. Essa disputa por poder ficou clara na história da
instalação da Câmara de Vereadores de São José quando das desavenças políticas
entre os líderes locais da época, resultando inclusive em tiros e mortes em
frente à Matriz de São José.
Aqui
tinha negros, sim senhor!
Infelizmente, pouco se pesquisou até agora
sobre a presença de escravos negros no Paraná. Muitos escritores, dentre eles o
famoso Romário Martins, chegaram mesmo a defender um “branqueamento” da
história do Estado. Em São José dos Pinhais isso não foi exceção. Uma grande
injustiça a quem teve que vir milhares de léguas da África até aqui e servir de
escravo para o mais diversos trabalhos forçados, e ainda não ter o
reconhecimento deste fato.
A mão-de-obra escrava negra, de origem africana, também foi utilizada e explorada em SJP [Imagem: Alberto Henschel]
Ao se pesquisar os livros tombos da Catedral
de São José dos Pinhais, ou mesmo resgatar reportagens de jornais antigos, como
o 19 de dezembro, pode-se conferir que não só existiram escravos em São José
dos Pinhais e em todo o Paraná, mas que eles, assim como em todo o país, eram
tratados como objeto e tudo isso era aceito até mesmo pela igreja da época.
De acordo com a pesquisa de mestrado de
Myriam Sbravati, São José dos Pinhais,
1776-1852 – uma paróquia paranaense em estudo (1980), em 1776 a população
escrava negra era de 23,1% (270 indivíduos). Um ano depois de São José se
tornar Município, em 1854, a população escrava era de 7,9%, ou seja, 365 pessoas.
Mais tarde, poucos anos antes da libertação definitiva dos escravos pela
princesa Isabel, São José possuía, em 1863, 769 escravos, representando 10,18%.
É claro que os escravos daqui faziam
atividades bem diferentes dos senhores de engenho de açúcar do nordeste, Rio de
Janeiro e São Paulo; mas, como escravos, deveriam fazer todo tipo de trabalho
pesado, como desmatar florestas, cortar lenha, fazer serviços domésticos, fazer
roçadas e plantações, etc. Como foi dito, os relatos são quase inexistentes,
principalmente com a vinda dos imigrantes europeus em 1878. A história destes
passou a ser contata como um drama épico, e que de certa forma foi mesmo, mas
não chegaria a ser trágica como a saga dos índios e dos negros. Antes de falar
dos imigrantes é preciso não esquecer que a nossa história, e o que somos hoje,
deve-se muito ao índio e ao negro.
A vinda de imigrantes e a criação das
colônias
Com a vinda de imigrantes europeus,
especialmente de origem polonesa, italiana, ucraniana e alemã, e no séc. XX de
árabes e persas, o ambiente cultural, político e econômico mudaria radicalmente
em São José dos Pinhais. E a mistura étnica formaria um novo perfil de
são-joseense.
A vinda de imigrantes para terras brasileiras
tinha como principal objetivo ocupar o território, ainda em grande parte
inexplorado pelos portugueses e seus descendentes. Antes, é preciso situar o
leitor que desde 1640, quando Portugal volta a ser independente perante a
Espanha depois de 60 anos, o Tratado de Tordesilhas há anos não vinha sendo
cumprido. Cada vez mais os portugueses foram conquistando territórios, antes
pertencente à Espanha. Em 1750, os dois países renegociavam os limites de
fronteira. O mesmo aconteceu em 1761, 1777 e, finalmente, em 1801, quando para
o Brasil-português faltaria apenas o Acre para constituir o território que
possui hoje. Nisso, surge um problema: como garantir estas fronteiras?
Na Europa, no século XVIII, a realidade era o
inverso. Com o auge da Revolução Industrial européia, milhares de pessoas
deixaram a área rural e acabaram por viver na miséria, desempregados e sem
perspectivas de vida. A situação ficou preocupante para os governos europeus,
que não sabiam o que fazer com tanta gente nas cidades, criando todo tipo de
problema social, como insegurança, violência, doenças e rebeliões.
Como diz o ditado: “juntou-se a fome com a
vontade de comer”. Os governos europeus queriam se livrar de milhares de
miseráveis, ao mesmo tempo em que os governos da América necessitam de
contingente populacional. Assim, milhares de europeus, na sua grande maioria
pobre e que possuía experiência no campo, vieram morar na América em busca de
melhores condições de vida.
O Brasil, para atrair imigrantes, divulgou
até mesmo na Europa as vantagens de vir morar no país. Essa promessa de um El Dourado brasileiro atraiu pessoas de
diversas localidades. No Paraná houve no ano de 1829 uma primeira tentativa com
russos e alemães, em Rio Negro (na época território da Lapa), mas foi um
verdadeiro fracasso. Novas tentativas foram feitas na década de 1870, mas desta
vez várias delas prosperaram.
Em São José dos Pinhais, a primeira colônia a
funcionar foi a Thomaz Coelho, em 1876. Contudo, pode-se dizer que a primeira
colônia são-joseense de fato foi a de Murici, em 1878, pois a de Thomaz Coelho
passou a pertencer a Araucária a partir de 1890.
No começo eles tinham como responsabilidade
cultivar a terra, plantar e fornecer alimentos para a Província do Paraná, ou
seja, os imigrantes tinham como tarefa abastecer os descendentes de portugueses
que já estavam no Município e região há 200 anos. Sem contar, é claro, a
vantagem que foi para os colonizadores de ter um grupo civilizado (na visão
européia) morando nessas terras, que trabalhassem e tivessem a mesma formação
cultural que eles. Porém, nem tudo foram flores.
Para os imigrantes, que aqui vieram pela
propaganda do El Dourado, logo tudo
se tornou uma dura realidade. Os subsídios de moradia e agrícolas, que deveriam
ser fornecidos pelo governo, ficaram somente na promessa. Para vencer esta dura
realidade, os colonos tiveram que improvisar na construção de suas próprias
casas, cortar toras e mais toras de pinheiros e imbuias centenários e ter
muita, mas muita paciência mesmo, pois com a demora ou a nunca vinda de
recursos por parte do Governo da Província, eles tiveram que se virar.
No centro, destaque para a inauguração da Casa Escolar Silveira da Motta, em 1912. Atualmente, o prédio abriga a Biblioteca Pública da Cidade [Foto: Museu Mun. SJP]
Isso sem falar nos confrontos que os colonos
tiveram que enfrentar com os nativos que circulavam nas proximidades da
colônia. De um lado, um grupo tendo que se defender de ataques; do outro,
tribos que lutam para reivindicar o que era delas. À parte desta realidade, uma
sociedade ainda escravocrata, na qual o negro, prestes a ser liberto pela Lei
Áurea (1888) ficaria numa situação como a do indígena: sem direito a terra e
sem perspectivas de progresso.
Os
primeiros empreendedores e a diversificação do comércio
A situação dos colonos não foi fácil. Entre
mentes, ainda no final do século XIX e início do XX encontramos, em registros
oficiais, imigrantes-colonos com estabelecimentos comerciais no Centro da Cidade
(São José dos Pinhais passou a ter este título a 27 de dezembro de 1897). Eles
iriam conviver com os descendentes dos antigos colonizadores portugueses, com
residências e comércio nas áreas nobres da cidade, especialmente dos de
descendência italiana e alemã, e se tornar as famílias tradicionais do Município.
Muitos deles com funções de destaque, como os guardas nacionais. Alguns deles
viriam a, inclusive, ocupar cargos políticos como os Brito, Ordini, Cruz,
Alves, Pereira, Cordeiro, Moro, Claudino, Killian, Massaneiro, etc.
Frente da Indústria Senegaglia, início do séc. XX [Foto: Museu Mun. SJP]
No século XX, São José dos Pinhais possuía diversos
estabelecimentos comerciais e a Rua XV de Novembro passa a ser o centro
comercial e político da Cidade. Em 1905, a nova igreja Matriz começa a ser
construída. Sua inauguração acontece na década de 1920. Perto dali, o grupo
escolar Silveira da Motta inaugura seu prédio, em 1912. O cinema também chega a
São José. O transporte coletivo, com os ônibus da empresa Santo Antônio, que
depois viriam a ser Auto Viação São José e Sanjotur, realizam o transporte dos
moradores de São José com Curitiba (com início em 1928) e da cidade com os
bairros e área rural, substituídos as antigas diligências.
A erva-mate, bem como a extração e manufatura
da madeira, que foram atividades econômicas de relevância no séc. XIX, passam
gradativamente a dar espaço para outros seguimentos. Já no séc. XX tem início o
processo de industrialização na região. Um exemplo disso é a indústria
Senegaglia, que seria símbolo do setor no Município, na qual se fabricavam
placas de veículos, canecas, baldes, latas, chocolateiras, calhas, formas de
pão, enfim, diversos produtos de uso para o dia-a-dia para uma população que
criava novas necessidades de utensílios, em moda até então, demonstrando o
franco progresso da sociedade são-joseense em acompanhar o que estava sendo
consumido em sua época.
Frota da empresa de transporte coletivo Santo Antônio, na década de 1940 [Foto: Museu Mun. SJP]
Na área rural, moinhos produziam o fubá e a
farinha e as serralherias manufaturavam a madeira para a construção de casas e
móveis. No centro, abrem-se sapatarias, restaurantes, fábricas de cerveja e
água-ardente, de refrigerante e licores, ferraria, alfaiataria e vários
estabelecimentos de secos e molhados.
Mesmo com tantos avanços e conquistas, os
moradores não perderam os seus costumes e tradições. A Igreja Católica local
fazia parte do cotidiano das suas vidas, seja nas colônias, seja na Cidade. É
importante destacar que até a década de 1960, a maioria da população morava na
área rural, cerca de 71,5%, ou seja, 20.657 habitantes, segundo dados do IBGE.
São
José: urbana e “cidade dormitório” de Curitiba
Na década de 1970, milhares de pessoas,
provenientes especialmente do norte do Paraná, deslocam-se para a região de
Curitiba. Um dos motivos foi o que se convencionou chamar de “a grande geada
negra”, uma forte friagem em 1975 que acabou com as plantações de café,
deixando na miséria milhares de paranaenses. Contudo, foi a crescente
industrialização no país que fez com que o cenário urbano e o inchaço nas
cidades médias e grandes começasse a ser cada vez mais intenso.
De uma hora para outra não só Curitiba
aumentou expressivamente a sua população, mas também cidades ao seu redor
recebem, sem planejamento, milhares de pessoas. Os “pés-vermelhos”, como foram
chamados os paranaenses provenientes do interior do Paraná, numa referência à
cor vermelha do solo da região, começam a se integrar com a vida e economia
dessas cidades. O crescimento foi tão expressivo que em 1973, Curitiba e as
cidades vizinhas (inclusive São José dos Pinhais) tornam-se uma das Regiões
Metropolitanas do Brasil.
O resultado dessa migração em São José dos
Pinhais foi impactante. Na década de 1980, a população simplesmente dobrou em
relação à década anterior (de 34.124 para 70.634 habitantes). A urbanização
também subiu, de 62,9% em 1970 para 78,8% em 1980.
Câmara Municipal de SJP [Foto: Antonio Bobrowec]
Mas a oferta de trabalho, em compensação, era
buscada em Curitiba, pois São José dos Pinhais, economicamente falando, ainda
era uma cidade interiorana. Isso fez com que milhares de pessoas saíssem de São
José em direção a Curitiba para trabalhar e retornarem assim que acabava o
expediente. Por causa disso, o município são-joseense ficou conhecido como
“cidade dormitório” de Curitiba.
Pode-se dizer que a súbita vinda de tantas
pessoas para São José tornou-se, a partir de então, um desafio de gestão
pública. De acordo com o censo de 1990, o Município passou a ter 101.881
habitantes. A grande maioria trabalhava em Curitiba, pois ainda eram poucos os
pontos de trabalho em São José dos Pinhais. Poucas empresas não significavam
apenas poucos empregos, mas também poucos impostos e, desta forma, menos
recursos públicos. Por outro lado, mais habitantes, mais demanda de infra-estrutura
a serem feitas no Município.
Vista área do Centro de São José dos Pinhais [Foto: PMSJP]
Pode-se dizer que a urbanização não
significou necessariamente progresso e vantagens para São José, e sim muito
mais um fator de desafio, ainda mais com o surgimento de problemas até então pouco
comuns pelos são-joseenses, como desemprego e violência.
Da
vinda das montadoras ao status de 2ª
economia do Paraná
Uma nova fase da história de São José dos
Pinhais começa a ser escrita a partir da segunda metade da década de 1990. Com
os avanços da tecnologia, a estabilidade econômica do país com o Plano Real e
as medidas políticas de abertura para o mercado estrangeiro, especialmente com
a vinda de multinacionais fizeram com que o Brasil se inserisse de vez nas
regras do jogo da Globalização. No meio desse processo, São José dos Pinhais se
destaca entre as cidades do Paraná para receber duas grandes montadoras multinacionais
de automóveis: a francesa Renault, na região de Roseira de São Sebastião,
inaugurada oficialmente em 1997 (vindo mais tarde a Nissan a ser incorporada a
ela) e a alemã Audi-Volksvagem, inaugurada em 1999 na região de Campo Largo da
Roseira.
Calçadão da Rua XV de Novembro, centro comercial da Cidade [Foto: Antonio Bobrowec]
A vinda destas duas montadoras mudaria mais
uma vez o perfil do município. Vários postos de emprego foram abertos, tanto
das próprias montadoras, quanto das diversas empresas e indústrias
terceirizadas que vieram lhes prestar serviços. A notícia da inauguração delas
foi um verdadeiro chamariz de pessoas vindas de toda a parte do Brasil em busca
de trabalho e melhores condições de vida. Para se ter noção do impacto que isso
iria criar no Município, de 1990 para o ano de 2000 a população novamente mais
que dobrou de uma década a outra, passando a ter mais de 204.000 habitantes. Se
no início da década de 1990 já era difícil administrar o São José dos Pinhais,
imagine a complexidade que passou a ser com o início do terceiro milênio!
Muitas das pessoas que vieram trabalhar nas
montadoras viram seus sonhos serem frustrados pela sua falta de qualificação
profissional. Este inclusive começou a ser uma das grandes preocupações a nível
nacional: qualificação educacional e técnica para encaixar a população nas
demandas de trabalho com as novas necessidades da Globalização.
Paço Municipal/Prefeitura de São José dos Pinhais [Foto: Antonio Bobrowec]
A situação se agravou ainda mais com os
resultados da abertura de mercado econômicos feitas em meados da década de
1990. O sistema econômico conhecido como neoliberalismo, ao mesmo tempo em que
incentivava a vinda de investimentos do exterior, exigia mão de obra barata; mas,
no caso das montadoras, qualificada.
Grande parte das pessoas que não conseguiram
emprego em São José dos Pinhais começaram a viver irregularmente, em condições
inadequadas de moradia. Ao mesmo tempo cresce a demanda por serviços públicos
como saúde, segurança, saneamento básico, moradia, educação, pavimentação
asfáltica ou de situação adequada de uso, etc. Se por um lado a vinda de
grandes indústrias fez com que várias outras indústrias também resolvessem se
instalar no Município, a falta de planejamento público não conseguiu
corresponder a boa parte da demanda de serviços à população.
No entanto, como resultado de medidas feitas
pelos governos Estadual e Federal nos últimos anos, como abertura de crédito a
classes C, D e mesmo E, a realização de planos assistencialistas para classes
menos favorecidas (a famosa “bolsa família”), a ampliação de oferta de ensino
superior (apesar que boa parte de iniciativa particular), e ultimamente de
cursos técnicos e tecnólogos, fizeram com que amenizasse um pouco a
desigualdade social. São José dos Pinhais, por exemplo, hoje possui três
faculdades (todas particulares, diga-se de passagem), além de várias escolas e
colégios particulares.
No comércio, várias empresas de rede se
instalam no Município como Casas Bahia, Salfer, Cem, Copel (que recentemente fechou
sua loja na Cidade), Marisa, Magazzine Luiza, Lojas MM, sem contar as
Pernambucanas que há anos se encontra na Centro urbano. Outras localidades da
cidade começam a ter um crescimento expressivo no setor comercial, como os da Rua
Almirante Alexandrino, no bairro Afonso Pena e a Rua Canoinhas, na Borda do
Campo. Mas o símbolo da auto-suficiência do comércio são-joseense perante
Curitiba, do qual historicamente era dependente, foi a inauguração do Shopping
Center São José.
Tudo isso fez com que, desde 2011, São José
dos Pinhais alternando o posto de 2ª e
3ª maior economia do Estado com o Município de Araucária. Porém, isso não
significa que esta realidade está se revertendo em serviços de qualidade e
ótima infra-estrutura para a população. Há muito a ser feito, exigindo das
autoridades públicas, e mesmo da sociedade civil, formas eficazes, e não
meramente paliativas, de solucionar os efeitos da falta de planejamento para a
repentina explosão demográfica do Município no final do século XX.
Mais uma vez é importante destacar que a
história de São José dos Pinhais, e agora mais do que nunca, não deve ser vista
separada do que vem acontecendo no Estado, no Brasil e no mundo. A diferença,
contudo, é que nos últimos anos o Município se tornou um dos grandes do estado,
tem uma relação interdependente com Curitiba, de forma colaborativa e saudável e,
principalmente, um povo multicultural e com um passado rico para contar.
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* Antonio Francisco Bobrowec é bacharel em Comunicação Social - Jornalismo (PUCPR/Eseei), licenciado em Filosofia (Bagozzi), pós-Graduado em História Antiga e Medieval/ História e Geografia do Paraná (Itecne) e mestrando em Educação e Novas Tecnologias (Uninter). Atualmente é presidente do Conselho Municipal de Cultura (CMC) e do Conselho Municipal de Patrimônio Artístico e Cultural (Compac), ambos de São José dos Pinhais
* Antonio Francisco Bobrowec é bacharel em Comunicação Social - Jornalismo (PUCPR/Eseei), licenciado em Filosofia (Bagozzi), pós-Graduado em História Antiga e Medieval/ História e Geografia do Paraná (Itecne) e mestrando em Educação e Novas Tecnologias (Uninter). Atualmente é presidente do Conselho Municipal de Cultura (CMC) e do Conselho Municipal de Patrimônio Artístico e Cultural (Compac), ambos de São José dos Pinhais











muito legal
ResponderExcluire muito legal e chato ao mesmo tempo
ExcluirOrgulho de ser são Joseense!! 45 anos!!! Antena 1000, Naútico, Bahamas, Americano, D'garagem... tempo bom curti muito...
ResponderExcluirNão gostei
ResponderExcluirMuito interessante
ResponderExcluirBom dia . Alguém tem o livro sobre história e geografia de são José dos Pinhais?
ResponderExcluirOs imigrantes de Maria Angelica Marochi
Excluirhttps://g.co/kgs/euFRvk
ExcluirVi, Vivi e vivo toda essa transformação a que se passa em São Jose dos Pinhais.
ResponderExcluirTerra que eu adoro.
É uma excelente cidade sim, mais é carente de unidades de saúde pois só tem uma upa a Afonso pena que apesar de ter bom atendimento e muito a única em uma cidade enorme, tornando dificultado o acesso de quem mora longe do Afonso pena, o atendimento e o cuidado do hospital São José é muito bom principalmente maternidade. Enfim é uma cidade boa.
ResponderExcluira revista não é da prefeitura meu caro portanto perde tempo reclamando aqui
ExcluirMuito bom. Adorei ler o artigo e a cidade é muito bonita.
ResponderExcluirAdorei. Eu acho são José dos Pinhais um cidade linda o centto da cidade o parque as praças...
ResponderExcluirTudo é lindo aqui em São José Pinhais
acho que pecou não citando as industrias de papel da cidade e sua historia
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