[Reportagem: Antonio Francisco
Bobrowec*]
Há cerca de 10.000 anos, tribos indígenas aqui viveram e, diferente do
que convencionamos utilizar hoje, não viam fronteiras entre as terras, a não
ser quando tinham contato com outras tribos.
Diferente do que se convencionou relatar, a história de São José dos
Pinhais tem sua origem anterior ao processo de colonização de seu território
com o Ciclo do Ouro (aqui em 1660-1690) e da Imigração Europeia (1878). Não se
pode esquecer que, muito antes dos europeus chegarem por estas terras, várias
tribos indígenas circularam no território paranaense cerca de 8.000 a.C. As
provas matérias dessas origens são encontradas nos sambaquis do litoral
paranaense, nas pinturas rupestres nos Campos Gerais e em achados
arqueológicos. Este é o caso de ferramentas e objetos encontrados em São José
dos Pinhais, nas proximidades da indústria Renault, datados pelos pesquisadores
da UFPR de 1.500 anos.
De acordo com estudos arqueológicos, nesta região do Paraná viviam dois
grupos étnicos indígenas: os tupi-guaranis, provavelmente os tupiniquins e os
carijós, que viviam mais na região litorânea e de serra, ou seja, na floresta
tropical e subtropical, e os botocudos (como se convencionou chamar por aqui os
índios xoclengues), que circulavam mais na região do planalto.
Os tupi-guaranis, dos quais faziam parte os carijós, eram considerados
pelos portugueses colonizadores como mais evoluídos do que outras tribos
indígenas da região, apesar de viverem ainda culturalmente no Período da Pedra
Polida. Eles não eram totalmente nômades. Prova disso era o fato deles
cultivarem a agricultura. Eles também sabiam fazer redes com fios de algodão
(os eni), criavam utensílios de cerâmica e fabricavam cestarias com fibras de
taquaras. Suas casas, as ocas, eram compostas de estacas de madeira cobertas
com folhas de butiá e palmeira. Ao descobrirem como extrair o veneno da
mandioca (ácido dihidrocianídrico), esses índios puderam
produzir e consumir farinha.
Já os botocudos, ao contrário da fama dócil dos carijós, eram muito hostis
e tiveram várias indisposições, tanto com os colonizadores no século XVI e
XVII, quanto com os imigrantes europeus que trafegavam no caminho dos Ambrósios
(até 1951 a região dos Ambrósios, que hoje pertence ao município de Tijucas do
Sul, fazia parte do território de São José dos Pinhais) ou enquanto estavam nas
colônias.
No século XVII e XVIII são registrados os primeiros redutos populacionais
oficiais, com a busca de ouro às margens do rio Arraial e com a instalação de
igrejas. Entram em cena os colonizadores de origem portuguesa.
Arraial
Grande: povoamento em busca do ouro
A
continuidade do processo histórico de São José acontece com a interiorização do
Paraná pelos bandeirantes, que entraram na região do litoral em meados do séc.
XVII. Nessa época, o Brasil era colônia da Coroa Portuguesa, que decide
colonizar o sertão brasileiro. Sertão aqui subentende como sendo o interior do
Brasil.
Ilustração retratando a realidade vivida por São José dos Pinhais, quando ainda era chamada de Arraial Grande. Entre os anos de 1660-1690, bandeirantes e aventureiros exploravam as margens do Rio Arraial em busca de ouro
Até o início
do século XVII o território brasileiro foi explorado pelos portugueses apenas
na extensão do seu litoral. Isso se deve a dois motivos: primeiro, porque
devido ao Tratado de Tordesilhas, firmado entre Portugal e Espanha desde 1494,
cabia o lado leste do Continente Americano para Portugal e o oeste para a
Espanha, de acordo com uma linha imaginária, e o que corresponderia aos
portugueses sobre o Paraná mal chegava a Paranaguá; o restante, inclusive o
território que viria a ser São José dos Pinhais, era espanhol; segundo, porque
Portugal até então não estava interessado em investir no Brasil. Foi a
descoberta de ouro em Paranaguá pelos bandeirantes no século XVII que fez com
que a Coroa Portuguesa mudasse de idéia.
Por causa do
ouro, surge em Paranaguá um povoado. Apesar de se ter encontrado ouro em
pequena quantidade, extraído das margens do rio (conhecido como ouro de
aluvião), foi o suficiente para atrair aventureiros de toda a parte da colônia.
Tal foi a importância da descoberta que a Coroa Portuguesa decidiu transformar
Paranaguá em Vila (como era chamado um município no Período Colonial) a 9 de
janeiro de 1649.
Mas,
Eleodoro Ébano Pereira, não satisfeito com o ouro encontrado em Paranaguá,
decide realizar duas expedições na busca de mais fontes do minério, uma em 1649
e outra em 1651. Descobre-se, assim, ouro em rios do Planalto. Um deles, o rio Arraial, na região nordeste
do atual Município de São José dos Pinhais, na divisa com Morretes. O local
ficou conhecido como Arraial Grande e tinha um caminho muito utilizado pelos
nativos na época, servindo de ligação terrestre entre o litoral e o planalto de
Curitiba.
Além de
Paranaguá e do Arraial Grande, outros focos de extração de ouro foram
importantes na região paranaense como o do Atuba (local hoje pertencente a
Curitiba e Pinhais), Arraial Queimado (Bocaiúva do Sul) e Canguiri (Campina
Grande do Sul, Quatro Barras, Pinhais e Piraquara).
É importante mencionar aqui que diferente das regiões do nordeste e de
São Vicente, como era conhecido São Paulo na época, a etnia negra que veio para
o Paraná como escravo deve ter sido em pequena quantidade. Isto porque ter um
escravo negro era muito caro na época e, se aproveitando da docilidade do índio
tupi-guarani, os bandeirantes primeiro se tornaram amigos para saber trafegar e
ter acesso ao litoral e depois, subindo a serra, às terras do planalto da
região de Curitiba e os Campos Gerais. Mas quando os índios não se tornaram
mais ameaça aos portugueses, foram escravizados por eles e obrigados a ajudarem
na busca de ouro na região.
De acordo
com o livro São José dos Pinhais: a
trajetória de uma cidade, elaborado pelos professores Francisco B. B. de
Magalhães Filho, Marionilde D. B. de Magalhães e Maria C. Colnaghi, da
Universidade Federal do Paraná – UFPR, a representação nacional do ouro aqui
extraída neste período era significativa. “Segundo os dados mais conservadores,
a produção anual média brasileira na última década do século XVII (1691-1700)
foi de 1.500 quilos. Como a produção de Minas Gerais estava ainda em fase
inicial, pode-se estimar que a produção do Litoral e o Planalto paranaense
deviam representar cerca de 1/3 desse total, algo portanto em torno de 500
quilos anuais”.
O fim da “febre” do ouro e o surgimento de novos povoados
A descoberta
de ouro no Arraial Grande fez com que houvesse um crescimento populacional
rápido e desordenado. É importante destacar que o povoado que ali se formou não
tinha o objetivo de permanecer, mas apenas explorar as riquezas da região.
Ainda não seria o primeiro povoamento fixo em terras são-joseenses. Isto
porque, no final do século XVII, a descoberta de ouro na região já não era mais
vantajosa. O ouro em Minas Gerais era encontrado em grande escala e muitos
foram os que deixaram o Arraial pelas péssimas condições de vida que começaram
a ter com a escassez do ouro. Infelizmente não se tem quase registros da
atividade e do cotidiano do Arraial Grande. Mas certamente no século XVIII a
região deixou de ser um expressivo reduto populacional e os moradores que ali
permaneceram apenas desenvolviam atividades de subsistência.
Em
contrapartida, com a descoberta de novas terras no planalto curitibano, que
hoje corresponde a todas as cidades que fazem parte da Região Metropolitana de
Curitiba, incluindo São José dos Pinhais, muitos foram os europeus (todos
portugueses na época) que requisitaram à Coroa a posse de extensões de terras,
conhecidas como sesmarias. Dentre eles estava a família do padre João da Veiga
Coutinho, tornando-se dono da fazenda Águas Belas, que equivaleria atualmente
aos bairros são-joseenses do Afonso Pena, Guatupê, Rio Pequeno, bem como da
região de onde se encontra o Aeroporto Afonso Pena, e também a fazenda Capocu,
conhecida depois como Fazenda Rio Grande, região que corresponderia provavelmente
ao atual município de Fazenda Rio Grande (que já pertenceu a São José) e aos
bairros Zacarias e Arujá, bem como as áreas rurais do Cachoeira e Agarau.
Surge a Freguesia de Bom Jesus dos Perdões e São José dos
Pinhais
Por volta de
1690 ergueu-se uma pequena igreja na fazenda Águas Belas, dedicada a Bom Jesus
dos Perdões. Naquela época, um local que tivesse uma igreja caracterizava que
os principais poderes, religioso e político no caso, também estavam
representados e para que estes estivessem ali era necessário ter pessoas.
Praça 8 de Janeiro, no centro de São José dos Pinhais. Imagem de meados do séc. XX.
Fonte: Museu Municipal de São José dos PInhais
No final do
século XVII e na primeira metade do século XVIII, em busca de melhores
condições de vida os primeiros são-joseenses que criaram uma comunidade fixa na
região preferiram um espaço que tivesse como realizar atividades agrícolas e de
pecuária, bem como que pudessem cumprir suas obrigações religiosas. Percebe-se
aqui que o primeiro habitante das terras são-joseense, o índio, começa a ter
que conviver com outra cultura, a do europeu que fixa moradia nestas terras e
coloca também como prioridade construir igrejas para adorar o seu deus.
Como
acontecerá em toda a extensão territorial brasileira, a convivência entre
índios e portugueses não será pacífica. A de origem européia e cristã sufocará,
e mesmo exterminará em relação a algumas tribos, a cultura indígena. Os índios
serão praticamente extintos, ou pela escravidão, ou por não terem mais o meio
ambiente propício para extrair da natureza a sua sobrevivência. Confrontos entre indígenas e colonizadores
serão largamente narrados tanto pelos oficiais da Coroa, quanto por relatos de
colonizadores, e mais tarde de imigrantes, que se fixaram nestas terras.
Mas, se por
um lado o índio passa a perder suas origens, sua cultura, para assumir a
contragosto a cultura cristã e européia, por outro ele acrescenta ao europeu,
neste processo de miscigenação, um pouco do que é dele. Do cruzamento do índio
com o português nasce o caboclo. Dessa forma, não éramos mais nem índios nem
portugueses, mas o resultado do cruzamento dessas duas culturas e povos.
Além da
fazenda do padre Coutinho, outra localidade começa a desenvolver um povoado. É
na região onde se tornaria, séculos depois, o centro urbano do município. Ali
seria elevada uma capela, tendo como padroeiro São José. Com o crescimento
dessas comunidades a região passou a se chamar Freguesia de Bom Jesus dos
Perdões e São José dos Pinhais. O termo colonial freguesia seria como que um
bairro ou distrito de Curitiba para a época. Mais tarde, não se sabe ao certo
os motivos, a região da capela São José se desenvolveria em preferência a da
capela do padre Coutinho.
Em 1779 a capela de Bom Jesus dos Perdões foi
demolida, devido ao seu estado de má conservação. Na sequência, padre Coutinho
doou a fazenda para a administração pública. Por meio de um inventário,
realizado em fevereiro de 1808, as terras foram leiloadas e adquiridas pelo
imigrante português Manoel Mendes Leitão, influente político são-joseense de
meados do século XIX.
O mais
antigo documento oficial que fala pela primeira vez da Freguesia de São José é
o provimento do ouvidor-geral Raphael Pires Pardinho, de 1721. Este era
responsável pela organização e solução dos casos administrativos e judiciários
dos locais por ele visitados. São também dele as primeiras leis de São José dos
Pinhais.
CONTINUA NA PRÓXIMA PUBLICAÇÃO....
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* Antonio Francisco Bobrowec é bacharel em Comunicação Social - Jornalismo (PUCPR/Eseei), licenciado em Filosodia (Bagozzi), pós-Graduado em História Antiga e Medieval/ História e Geografia do Paraná (Itecne) e mestrando em Educação e Novas Tecnologias (Uninter). Atualmente é presidente do Conselho Municipal de Cultura (CMC) e do Conselho Municipal de Patrimônio Artístico e Cultural (Compac), ambos de São José dos Pinhais.


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